Outros Trabalhos

O Mandarim – apóstrofe e paciência

de Pedro Barreiro

a partir d’O Mandarim
de Eça de Queiroz

Dezembro, 2017

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apóstrofe,
s. Do gr. apostrophē, «acto de desviar; acto de desviar por si, de arranjar, de conseguir; acto de se desviar, de fugir; acto de se desviar com repugnância de; repulsa, aversão por; acto de distrair, distracção; acto de escapar a, recurso contra; apóstrofe; elisão de vogal final; lugar onde nos desviamos, onde nos refugiamos, asilo», pelo lat. apostrophē, «apóstrofe», figura de retórica pela qual o orador, afastando-se do juiz, se vira para o adversário e o interpela». (…) *

paciência,
adj. Do lat. patientia, acção de suportar, de sofrer; faculdade de sofrer, paciência, longanimidade; aptidão para suportar tudo, resistência; submissão, servilismo.*
* MACHADO, José Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 8ª edição, Livros Horizonte, 2003

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Teodoro, personagem central d’O Mandarim (Eça de Queiroz, 1880), é um funcionário público pouco ambicioso que se vê tentado, por uma passagem impressa num mirífico in-fólio, a matar Ti Chin-Fu, velho e rico mandarim que vive nos confins da longínqua Mongólia. Para o fazer, apenas teria de tocar uma campainha e, se o fizesse, herdaria a sua infindável fortuna. Teodoro toca na campainha. Pouco depois de sucumbir à tentação e de se tornar extraordinariamente rico, começa a sua odisseia de redenção, sempre assombrado pela imagem fantasmagórica do velho mandarim e violentado pela confusão em que vive a sua consciência, das quais tenta, sem sucesso, ver-se livre.

Importa referir que o interesse por esta novela não é moral. Dela são usados vários momentos como motores ficcionais, propondo uma poética cénica de génese literária e tendencialmente anacrónica. Por outro lado, são provocados conflitos dramatúrgicos através da subversão de mecanismos canónicos de composição teatral e das relações problemáticas entre ideia, palavra, imagem, objecto, autor, intérprete, leitor e espectador, propiciando uma análise desiludida do mundo e do valor do fazer artístico.

 
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O vosso julgamento é soberano e não serve para nada.
O que vos oferecemos é uma ideia cheia de ideias diversas que vos podem dizer tanto quanto nos dizem a nós. O autor diz que esta é uma obra modesta, habitada por fantasmas e desviada da corrente geral. Pertence ao sonho. Foi inventada. Não foi observada nem copiada e caracteriza fielmente coisa nenhuma. Rejeita qualquer tendência, não respeita naturezas nem acredita em identidades. Procura a totalidade e pode estar completamente equivocada.
Aqui continuamos a ser profundamente líricos e idealistas, amamos apaixonadamente e consideramos sempre a fantasia como a mais alta das qualidades. Ideias justas dificilmente vos interessam, porque nãoas entendem. Também por isso estamos próximos. 
No fim, depois da última página escrita, da última palavra dita, da última canção cantada, saímos à rua, retomamos o passeio, e remetemo-nos ao estudo severo da humanidade e da sua eterna miséria.
 
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Texto: Pedro Barreiro a partir de Eça de Queiroz, Fernando Brito e Paul Valéry | Direção Artística e Dramaturgia: Pedro Barreiro | Direção Técnica: Tiago Correia | Interpretação: Carla Reis, Fernando Brito, Fernando Romão, Pedro Barreiro, Sandra Oliveira, Sérgio Pereira, Silvana Ivaldi | Espaço Cénico: Fernando Brito, Pedro Barreiro, Silvana Ivaldi | Figurinos: Silvana Ivaldi | Multimédia: Rodrigo Pereira | Colaboração Dramatúrgica: Mauricio Paroni de Castro, Ricardo B. Marques, Rui Lopes | Operação Técnica: Rodrigo Pereira e Tiago Correia | Comunicação e Produção: Rodrigo Pereira | Design Gráfico: Silvana Ivaldi | Coprodução: Activo Tóxico – Artistas Associados / Teatro Sá da Bandeira

Teatro Sá da Bandeira, Santarém – Portugal